Cont 2 (...) 16 Dezembro de 1975

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Entretanto, qual a posição dos 600 mil brancos angolanos?
Com a abertura política do 25 de Abril e, principalmente, perante a previsão da possibilidade de breve independência, os brancos sentiram necessidade de se agruparem para marcar, desde logo, presença no processo político que se avizinhava. Mas não foi sem dificuldade o pouco que se realizou nesse sentido, dada a indiferença, melhor direi comodismo da maioria.
É que, fora os poucos que viviam da política e estavam comprometidos com a administração portuguesa, os restantes eram políticos, eram homens que sempre viveram mais ou menos longe do Terreiro do Paço e das suas tramas, que tinham como principal objectivo a frutificação do seu trabalho, e entendiam que o seu feudo nunca poderia ser afectado pelo rumo da política. No entanto, todos sentiram, certamente, a necessidade de união para eventual defesa dos seus interesses e da sua condição, frente à onda de entusiástico racismo negro que começava a alastrar. Mas não foi fácil arranque. De qualquer modo arrancou-se. Um engenheiro do Lobito, já conhecido pelas suas lides políticas (Fernando Falcão) tomou a peito a organização de um grupo político a que deu o nome de Frente de Unidade Angola (FUA).
Este Movimento, ainda que impulsionado por brancos, pretendia congraçar além destes, todos os negros que desejassem, conscientemente, uma Angola livre de partidarismos, de tribalismos e de racismos. Pretendia uma sociedade plurirracial, onde brancos e negros teriam as mesmas oportunidades consoante as suas capacidades, sem primazia que não resultasse das suas próprias aptidões.

E o primeiro golpe que sobre ele caiu veio de Portugal: Rosa Coutinho, talvez para controlar de perto, chamou ao seu Governo o chefe da FUA, Fernando Falcão, como Secretário de Estado sem Pasta.
Claro que a razão oficial foi outra na altura até acolhida com simpatia: conceder representação, no Governo Provisório, ao grupo branco, principio do reconhecimento da etnia branca como uma força na política angolana.
Sabia , porém, o Governo, e principalmente o cripto-comunista Rosa Coutinho, que a FUA não partilhava de ideais ditos progressistas, pois tudo indicava que a grande maioria dos brancos perfilhava ideias relativamente conservadoras e, quanto muito, moderadamente socialistas; e isto de modo algum convinha ao Governo Português apostado como estava em embarcar Angola no comboio comunista por meio do MPLA.
Daí, o segundo motivo da chamada de Falcão à governação.
E tão bem se houve Rosa Coutinho que, meses mais tarde, e depois do esfrangalhar da FUA, Falcão alinhou, com sinceridade ou não, abertamente ao lado do MPLA.
O segundo golpe (e definitivo) sobre a FUA, veio também de Portugal.
Em Janeiro deste ano e no Acordo de Alvor, Portugal aceitou sem qualquer esboço de oposição (se é que a iniciativa não foi sua), o afastamento da FUA nas negociações. Só os três Movimentos (FNLA, MPLA e UNITA) seriam os únicos e legítimos representantes do povo angolano. A FUA, ou qualquer representação branca, ficou definitivamente enterrada.

Miseravelmente o Governo do Senhor Vasco Gonçalves sacrificou os seus irmãos de raça aos inconfessáveis desejos do seu patrão soviético.

E o Mundo quedou-se impassível.
Os brancos de Angola sentiram-se desanimados, desamparados, abandonados, depois angustiados, a seguir apavorados.

Daí a posterior debandada em pânico.