As agências noticiosas têm tido dificuldade para dar novas de sensação, e preencherem os seus noticiários com comentários e reproduções.
A falta de comunicações com o exterior mais vem enegrecer a já desanimadora situação que se vive no Lobito. Situação inquietante e angustiante, pela incerteza do dia de amanha; inquietante pelas dúvidas de que o que hoje nos pertence poder ser arrebatado por qualquer bandoleiro com uma arma; angustiante por se saber que, em caso de necessidade, não teremos transporte para nos evacuar - nem aéreo, nem marítimo, e muito menos terrestre.
As habitações e os haveres dos ausentes, mesmo daqueles que se afastaram por pouco tempo, são tomados de assalto e distribuídos pela população.
Por isso, poucos querem trabalhar, já que a apropriação do alheio lhes dá para viver...por enquanto. O Vale do Cavado, larga faixa de terrenos de aluvião que abastecia de vegetais frescos a zona do Lobito/Benguela, está praticamente abandonado. Nele floresce agora capim...e dá ainda algumas bananas enquanto durarem as culturas antigas.
Tenho noticia de que no interior as terras aráveis não foram cultivadas, já por a guerra o dificultar, já pela noção, nalguns arreigada, de que depois da Independência não seria preciso trabalhar, pois as riquezas dos brancos seriam suficientes para viver.
Felizmente que nem todos assim pensam; muitos negros já se aperceberam de que, dentro em pouco, não terão que comer e lamentam o afastamento dos brancos; secretamente, desejam até o seu regresso como única maneira de voltarem á, embora modesta, prosperidade. E não são poucos os que assim pensam, mas são silenciosos.
Por isso, impera a demagogia, o aventurismo. Mais tarde virão novamente os brancos, talvez eslavos ou cubanos, talvez mesmo portugueses mas seja quem for, terão de começar pelo principio.
Mas uma coisa parece certa: não será possível estruturar uma politica económica séria sem reajustar os preços do trabalho aos preços concorrenciais da produção. Por outras palavras, torna-se necessário e para já, rebaixar os salários à medida justa para um custo de produção equilibrado.
A elevação arbitraria de salários, por reinvidicaçoes inconsequentes, pode ser do agrado das massas e granjeia popularidade a quem a fomenta, mas resulta, sem dúvida, em apressada morte da economia. Foi o que aconteceu em Angola que segui, aliás, o "brilhante" exemplo de Portugal pós 25 de Abril.
No tempo da "execranda dominação colonial", os salários do trabalhador, designadamente do trabalhador nativo, eram efectivamente baixos. Não tão baixos que merecessem a designação de salários de fome; mas em todo o caso baixos. O facto serviu, e continua servir, como tema preferido pela especulação política, sempre que se pretenda denegrir a administração lusa. Todavia, em relação à produtividade (geralmente muito baixa) eram relativamente elevados se os cotejarmos com os salários e produtividade dos países desenvolvidos.
De qualquer modo, durante a "detestável" administração portuguesa (que impunha o dito trabalho escravo, etc) os salários dos trabalhadores angolanos estavam em 5º lugar entre os mais elevados de todo o continente africano, segundo os relatórios dos organismos internacionais. Isto quer significar que os salários pagos na "detestável" colónia portuguesa eram superiores aos de mais de 30 países que fruíam uma feliz e inefável independência.
(...)